Uma ferramenta inclusiva para o desenvolvimento agrícola e rural

No dia 19 de Julho decorreu no Mercado da Ribeira, em Lisboa, a apresentação pública da plataforma SmartFarmer. Esta plataforma resulta de um projecto que nasceu de uma parceria entre a Fundação Vodafone e a Oikos - Cooperação e Desenvolvimento e vai estar disponível a partir de Agosto, podendo ser acedida através de computador, ‘tablet’ e de uma aplicação para o telemóvel.
A plataforma SmartFarmer é muito mais do que uma plataforma para a comercialização de produtos agrícolas e agro-alimentares. Criada com o objetivo de potenciar os circuitos agroalimentares, os mercados de proximidade e a venda de produtos de pequenos produtores esta ferramenta é inovadora do ponto de vista tecnológico mas também do ponto de vista organizacional.Ela permite a venda directa através de plataforma electrónica, a actualização permanente de preços, a divulgação e venda de pacotes turísticos associados às explorações agrícolas, a divulgação de boas práticas na explorações agrícolas mas permite também criar e alimentar uma enorme rede de actores do desenvolvimento agrícola e rural.
Esta Plataforma para funcionar terá que se basear numa REDE com diversos nós de articulação, local, regional e nacional que deverá integrar produtores, organizações de produtores, autarquias, organismos desconcentrados da Administração Pública e própria DGADR muito poderá contribuir, nomeadamente através da RRN para a constituição desta REDE que será a base da plataforma SmartFarmer.
A SmartFarmer poderá, se esta REDE de suporte for devidamente construída e dinamizada, transformar-se numa importante e inovadora ferramenta para a promoção do desenvolvimento rural e da agricultura portuguesa, sobretudo da pequena e média agricultura, que é a mais desprotegida em relação aos mercados, sem excluir a possibilidade das explorações com dimensão empresarial poderem aderir.
É uma ferramenta inclusiva: inclui territórios, pessoas e entidades e inclui explorações agrícolas com diversas dimensões económicas (grandes, pequenas e muito pequenas).
É inclusiva também porque permite o acesso às cantinas públicas pela articulação que faz com centrais de compras públicas.
Num estudo publicado pelo Observatório dos Mercados Agrícolas e das Importações Agro-Alimentares, em Março de 2007 é referida a existência de «um acentuado desequilíbrio na distribuição do rendimento gerado na fileira Hortofrutícola, não havendo uma repartição equitativa entre os vários intervenientes do processo de produção-comercialização, desde o produtor até ao consumidor final. Relativamente à fileira da pêra Rocha, verificou-se que 74 % do rendimento gerado com a sua comercialização ficam na distribuição, com dominância dos operadores de mercados retalhistas, que absorvem 55 % do valo»
Se na pêra Rocha, de acordo com estes dados, apenas 16% do rendimento fica no produtor, podemos inferir que nos produtos provenientes de sectores menos organizados e menos competitivos no mercado nacional esta diferença tenderá a acentuar-se em prejuízo dos produtores.
Nesta sessão, Custódia Correia, Coordenadora da Rede Rural Nacional, afirmou que no âmbito das actividades da RRN organizaram um conjunto de workshops regionais para identificar temas prioritários a trabalhar pela Rede. Em todas as regiões o problema da comercialização de produtos agrícolas e agro- alimentares e os circuitos curtos ficaram entre as três primeiras prioridades.
Considerando que nestes workshops participaram 220 entidades (dados avançados pela Coordenadora da Rede Rural Nacional) representativas dos diversos sectores e territórios (empresas, associações, cooperativas, federações, autarquias, comunidades intermunicipais, centros de investigação e instituições de ensino superior) podemos, com base nos resultados dos debates realizados afirmar que comercialização de produtos agrícolas e agro- alimentares e os circuitos curtos são uma preocupação que deve merecer a atenção de todas as entidades, públicas e privadas, com responsabilidades na promoção do desenvolvimento agrícola e rural.
Assim, a SmartFarmer tem um enorme potencial para inverter estas lógicas de distribuição de riqueza ao longo dos circuitos de comercialização permitindo o estabelecimento de ligações directas entre produtores e consumidores.
Aqui se enquadra na perfeição o conceito de Circuito Curto Agro-alimentar. Sabemos que este termo corresponde a uma diversidade de conceitos. A abordagem que no nosso entender nos parece mais adequada baseia-se na «noção mais abrangente que enquadra todo este o movimento em torno da aproximação produtor-consumidor é o conceito de “Sistema Alimentar Local” e definido por Feenstra (2002) como “um esforço colaborativo para construir economias alimentares auto-sustentadas e baseadas no local, em que a produção, transformação e distribuição e consumo são integrados de forma a melhorar a economia, o ambiente e a saúde social de um lugar específico (Cristóvão e Tibério, 2009)»
Este conceito enquadra bem o potencial da SmartFarmer, saibamos nós aproveitar esta ferramenta em todas as oportunidades que nos oferece.
Em cada lugar, em cada região, está nas mãos dos produtores e das suas organizações tomarem nas suas mãos esta tarefa de montar a REDE de suporte da SmartFarmer que, sem ela, a SmartFarmer será apenas e nada mais do que uma plataforma digital. 

Maria do Carmo Bica,
Presidente da Direcção da Cooperativa 3 Serras de Lafões