Austeridade agravou as desigualdades entre mulheres e homens (Maria do Carmo Bica)

Tem-se vindo a verificar uma apropriação comercial do Dia da Mulher. Vendem-se flores, perfumes e outros bens de consumo dirigidos a mulheres; bares e restaurantes organizam grandes festas para mulheres. O Dia da Mulher parece ficar reduzido a mais um evento de carácter comercial.

Porém, em vez de combater ou ridicularizar esses momentos, às vezes únicos para muitas mulheres, melhor será organizar espaços de debate e iniciativas, sobre o real significado do Dia da Mulher.

Em 2015, no auge das políticas de austeridade, percebe-se que os seus efeitos na destruição da economia, da democracia, do bem-estar da maioria da população e principalmente das mulheres e das crianças, aumentam a pertinência e a urgência de evocar as lutas feministas por uma sociedade mais justa e mais igualitária.  

Uma das consequências foi o enorme retrocesso em matéria de igualdade entre homens e mulheres que se traduz de forma visível no aumento das diferenças salariais, da precariedade do emprego feminino, na feminização da taxa de desemprego e da pobreza e no aumento da prostituição. Mas também se traduz, de forma menos visível, no aumento dos estereótipos de género, numa intensificação dos mecanismos de controlo social sobre as mulheres, que são novamente remetidas às tarefas domésticas de cuidadoras.

Verifica-se assim uma sobrecarga do trabalho feminino não remunerado que, na prática, deixa as mulheres mais vulneráveis. Retira-lhes tempo para procurar emprego, para aumentarem os seus níveis de formação e informação, para a cidadania e a participação, afastando-as, assim, cada vez mais dos lugares de decisão.

O aumento do trabalho precário e do trabalho informal conduz também as mulheres para situações de maior vulnerabilidade, face ao sistema de protecção social.

A austeridade atingiu duplamente as mulheres em relação aos homens. E ainda mais as mulheres agricultoras e rurais.

Primeiro, porque as mulheres não são responsáveis pelas decisões políticas que conduziram a esta crise. Elas estão, salvo raras excepções, fora das decisões dos grandes grupos financeiros produtores e beneficiários desta crise. Estão, ainda, em grande minoria no Governo, na Assembleia da República e duma maneira geral em todos os órgãos de soberania.

Segundo, porque são as mais afectadas pela perda de rendimento e baixa salarial, sendo nas profissões mais mal remuneradas que se encontra a maioria das mulheres.

Terceiro, as mulheres agricultoras e rurais sofrem todos os problemas das outras, acrescidos das dificuldades no acesso aos serviços públicos que, entretanto, encerraram (escolas, tribunais, centros de saúde, serviços agrícolas), da ausência de redes de transportes públicos, do isolamento, da solidão e da pressão social típica de terras onde, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece.

Todos estes retrocessos, que são civilizacionais, reflectem-se também no futuro do país. Ter filhos passou a ser quase um privilégio. As mulheres das classes sociais mais desfavorecidas nem têm direito a decidir ter filhos, porque essa seria uma decisão difícil, face à precariedade da vida.

É indispensável pôr fim a estas políticas de austeridade. Renegociar a dívida em nome da qual se mantém a destruição da vida no nosso país, implica força, competência, determinação e uma forte base social de apoio, para enfrentar e afrontar as forças dominantes na Europa. Esta deve ser hoje a principal ambição feminista.

Maria do Carmo Bica, 
Presidente da Direcção da Cooperativa 3 Serras de Lafões e da GLOCALDECIDE
(11/3/2015)