Vez e Voz DEZEMBRO 2012

VVcapa2012SUMÁRIO
EDITORIAL
1 A cidadania contra a crise
Manuel Sarmento

MERCADO DE TRABALHO
4 “Novas” legitimidades de segmentação do mercado de trabalho de jovens diplomados
Ana Paula Marques

NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS
25 Crise, Democracia e vontade popular
- Entrevistas: Sara Rocha, Paula Montez, André Vizinho, Gil Penha-Lopes, Filipa Pimentel
31 - Comentário: Mudar o mundo
António Pedro Dores

REDE ANIMAR 2012
36 As Redes Colaborativas de Produção e Emprego LocaI
José João Rodrigues
41 - Testemunhos
Liliana Simões (ADSCCL), TAIPA, GERAÇÃO COOP
42 Cooperativismo - também uma forma de criar autoemprego
Tânia Gaspar

POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL
45 Ruralidade
Eduardo Figueira
54 Animar o mundo rural
Célia Lavado, Marco Marques, Miguel Amaral, Raquel Gonçalves, Tiago Gillot

59 REGISTO

EDITORIAL
A cidadania contra a crise

Mercado de trabalho, novos movimentos sociais, políticas de desenvolvimento: estas são as palavras-chave da Vez e Voz que ora se edita. Poderiam ser outras? Certamente que sim, mas dificilmente teriam tanta atualidade e importância. Perante o assustador número de desempregados em Portugal (18,2% da população ativa, caminhando rapidamente para os 20%), é manifesta a intensa contestação, multiplicada por formas diferenciadas de expressão e pela tomada da palavra por grupos de cidadãos e por novos movimentos sociais que põem em causa o modelo de desenvolvimento social em vigor e que reivindicam novas oportunidades de vida, outras formas de sociabilidade, e renovadas políticas de desenvolvimento. É importante, nestas circunstâncias, procurar soluções, porque há sempre mais do que uma saída, e o debate sobre alternativas constitui a própria natureza da democracia.

Vez e Voz participa neste debate, não no sentido de produzir uma receita mágica para a crise, mas de ajudar a construir caminhos de mudança, através do seu modo próprio, que é o de divulgar estudos e experiências que põem em destaque o desenvolvimento local enquanto meio diferenciado de garantir o progresso social, de promover a democracia participativa e de contribuir para o bem-estar das comunidades.

Com efeito, perante a crise que dilacera a sociedade portuguesa, poucas vezes se terá posto em devido destaque o papel das associações do desenvolvimento local (ADL) na construção de laços sociais sólidos, capazes de proteger as comunidades, e na promoção de formas de economia social e solidária que criem emprego e contribuam para relações económicas socialmente justas, ecologicamente sustentáveis e favorecedoras do progresso e bem-estar.

Esse papel, que a Animar representa e promove, pode ser decisivo quanto todas as esperanças parecem desmoronar-se face à desindustrialização galopante, à destruição de postos de trabalho, à ameaça que impende sobre os serviços públicos, à destruição do estado social e à dissolução dos laços de solidariedade intergeracional pela restrição do trabalho dos mais jovens, a pobreza de tantos adultos e o abandono dos mais velhos.

As dinâmicas de desenvolvimento local promovidas pelas ADL contribuem para que as populações se sintam mais coesas e solidárias, afirmem a sua identidade como sujeitos do seu próprio presente, atribuem poder às comunidades, previnem e socorrem as situações de maior carência e isolamento social e contribuem efetivamente para o progresso económico e a criação de emprego. É certo que uma crise global, que abala os alicerces da sociedade contemporânea, é demasiado forte para poder ser debelada pelas dinâmicas locais; exige, de facto, respostas globais. É também certo que as próprias ADL são afetadas pela crise, a qual põe severamente em causa a sua sustentabilidade. Mas é inegável que as dinâmicas locais de desenvolvimento sendo, em si mesmas, respostas limitadas mas inestimáveis de defesa das populações perante a crise, são também indiciadoras de caminhos que enunciam outras formas de conceção da economia, mais incrustada na sociedade, de ação política, mais participativa, e democrática, e de recomposição do tecido social, mais igualitário e inclusivo.

O presente número da Vez e Voz enuncia, nos artigos de reflexão teórica e nos relatos de projetos que corporizam práticas de intervenção inovadoras, linhas seguras de construção da alternativa que constitui o desenvolvimento local. Aliás, recentemente, a sociedade portuguesa reconheceu-o igualmente, no ato simbólico que constitui a aprovação, por unanimidade, da lei da economia social na Assembleia da República. O consenso conseguido é significativo. Mas será insuficiente se não se traduzir numa regulamentação adequada e efetivamente direcionada para a promoção da economia social, reconhecendo de forma justa o papel das ADL e outras organizações sociais.

Este número foi preparado e dirigido pela direção da Animar que cessou o seu mandato em dezembro de 2012. Fica como o testemunho de uma linha de orientação genuinamente apostada na promoção das comunidades que dão sentido à rede Animar e que tem continuidade e desenvolvimento no esforço de todos por fazer do desenvolvimento local o eixo de uma alternativa ao empobrecimento, ao enfraquecimento da vida democrática e à rutura social.

Manuel Jacinto Sarmento