Vez e Voz DEZEMBRO 2008

VVcapaDEZ2008SUMÁRIO

5 EDITORIAL
Uma questão de desenvolvimento
David Marques

7 As questões de género na aula
Artemisa Coimbra
27 O desafio do mainstreaming
Rosa Monteiro
35 O papel das organizações do terceiro sector na promoção da igualdade entre mulheres e homens - que efectividade?
Mónica Lopes
51 Violência doméstica e género
Raquel Cardoso

REGISTOS
64 Boas práticas portuguesas no co-financiamento de projectos sobre igualdade de género
Maria do Rosário Fidalgo
72 A Igualdade de Género como exercício de cidadania
Célia Lavado

87 NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Operárias e burguesas. As mulheres no tempo da República
Igualdade de género em Portugal
Imigração e etnicidade. Vivências e trajectórias de mulheres em Portrugal
O livro negro da condição das mulheres
Dicionários de mulheres rebeldes
As mulheres na União Europeia. História, trabalho e emprego
Violência contra as mulheres na família
Global Report on Trafficking in Persons
The Global Gender Gap Report 2008

91 ESTATUTO EDITORIAL
92 NORMAS DE PUBLICAÇÃO

 

EDITORIAL

Uma questão de desenvolvimento

Desde as primeiras e pioneiras intervenções territoriais, desenvolvidas no quadro dos princípios e das práticas do Desenvolvimento Local em Portugal, que as questões de género assumiram primordial atenção e relevância. Esta situação aconteceu naturalmente, pois quando as pessoas e as suas iniciativas estão no centro do nosso trabalho a perspectiva de género tende a impor a sua presença. Contudo, só ganhou uma particular e determinante importância em função do modelo de desenvolvimento em que se sustenta este trabalho.

Desencadear processos de desenvolvimento local, iniciativas e empreendimentos sustentáveis exige, de quem nestes se envolve, uma atitude permanente de promoção da inclusão, um maior e mais esclarecido envolvimento dos homens e mulheres na condução do seu destino. Quando envolvidos no combate à pobreza, ao desemprego, à baixa escolaridade nos territórios de exclusão, verificamos sem surpresa que a esmagadora maioria das vítimas deste flagelo são mulheres. O peso da herança cultural que atribuiu a homens e mulheres papéis sociais tão distintos sente-se ainda de forma bastante sensível em todo o país. Apesar das mudanças significativas que marcaram os trinta e cinco anos de democracia são bem evidentes os sinais de discriminação e de desigualdade ditados pelos traços da diferença resultantes da construção social de género no trabalho, na família e na participação politica e cívica.

Trabalhar no contexto do Desenvolvimento Local sem ter em conta a dimensão de género resulta sempre num trabalho incompleto. As organizações e as iniciativas de Desenvolvimento Local estão cientes desse facto. São muitos os projectos e as intervenções centradas nesta dimensão ou que a integram de forma transversal. Gabinetes pela igualdade, materiais e recursos didácticos e pedagógicos para a conciliação, parcerias e agendas para a igualdade de escala local e municipal, parcerias transnacionais, troca de experiências, projectos de empreendedorismo feminino, são exemplos de projectos que podemos encontrar um pouco por todo o país, das aldeias do interior aos bairros suburbanos do litoral. Contudo, é preciso levarmos esta preocupação mais longe. Porque, derrubar estereótipos e comportamentos geradores de discriminação é um desafio permanente que apela ao espírito autocrítico mais profundo, importa interpelar os nossos mecanismos internos de organização, as nossas atitudes organizacionais, as nossas práticas profissionais e familiares de forma constante e activa. É preciso trazer cada vez mais esta reflexão e discussão para as nossas rotinas do dia-a-dia, para além do que é exigível pela dimensão da nossa intervenção.

Dedicar um número da Revista Vez e Voz à temática da igualdade de género é, neste sentido, consequência óbvia. Porque a (des)igualdade de género é uma questão de justiça e de democracia, é, naturalmente, uma questão de desenvolvimento.

David Marques