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Economia solidária não deve ser vista como dependente de subsídios - Entrevista a Célia Pereira

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Célia Pereira, Coordenadora Geral da Cresaçor defende que o setor da economia solidária tem de ser visto como prestador de serviços e não como subsidiodependente. A Cooperativa tem apostado no empreendedorismo e na formação, criando empresas e gerando centenas de postos de trabalho

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A Crersaçor, Cooperativa Regional de Economia Solidária, já abrange 11 áreas de intervenção espalhadas por 22 instituições, cujos projetos vingaram no “frágil” mercado de economia solidária, dando origem a empresas e a pequenos negócios. 
Ao longo de 15 anos, a cooperativa já apoiou a criação de mais de uma centena de microempresas e pequenos negócios nos Açores e mais de duas centenas de postos de trabalho. 
A rede de economia solidária é composta por empresas na área alimentar (venda de refeições para fora e fabrico de biscoitos, compotas e licores), de carpintaria, artesanato e turismo inclusivo. 
Passados 15 anos da implementação da Cresaçor, a coordenadora, Célia Pereira, defende que as organizações do terceiro setor (economia solidária) não podem ser vistas como subsidiodependentes, mas prestadoras de serviços em áreas que o Estado não consegue chegar.


É com a congregação de iniciativas pela Cresaçor que a economia solidária passa ter uma nova dinâmica nos Açores? 
Começa a ter uma dinâmica e uma expressão própria e dando origem ao conceito de economia solidária nos Açores. A Cresaçor representa hoje a Rede de Economia Solidária dos Açores, formada atualmente por 22 instituições sem fins lucrativos que apoiam e acompanham públicos em risco, promovendo a sua inclusão, nomeadamente através da formação e empregabilidade, tendo como referência os princípios de Economia Solidária. Integra, também, a Rede de Economia Solidária da Macaronésia constituída pelas Regiões Açores, Cabo Verde, Canárias e Madeira e é ainda membro fundador da RIPESS Europa.

 
O projeto deixou de estar adstrito apenas a uma ilha... 
E um projeto que desde a primeira hora é de âmbito regional, representando um conjunto de organizações dos Açores, com iniciativas de economia solidária e que depois foi crescendo partilhando a sua experiência com organizações da Macaronésia.


Ao fim de mais de uma década, a economia solidária já se afirmou como um terceiro setor dos Açores? 
Penso que a economia social e solidária já representa o terceiro setor na região, no país e na Europa. As iniciativas de economia solidária são antes de mais atividades económicas em que o lucro é distribuído não pelos acionistas mas investido no desenvolvimento de projetos e iniciativas promotoras da inclusão social, de luta contra a pobreza, na promoção do emprego e da empregabilidade de pessoas em risco que necessitam deformação, capacitação das suas competências pessoais, sociais e profissionais para ingressaram no mercado de trabalho em pé de igualdade com os demais. Neste sentido, a Cresaçor foi crescendo e desenvolvendo um conjunto de projetos que apostam muito no empreendedorismo, no microcrédito e na formação, quer numa relação de proximidade e trabalho de parceria com os seus cooperantes e com os seus parceiros público-privados.

 
Passados quinze anos é possível falar em autossustentabilidade dos projetos de economia solidária? 
Era o que nós gostávamos. Mas temos cada vez mais de olhar para nós como prestadores de serviços porque, no fundo, estas onze áreas de trabalho representam serviços que nós prestamos à comunidade, sejam a pessoas em risco de exclusão social quer sejam às entidades públicas e privadas que não podem por si só desenvolver estas respostas face a estas necessidades. Temos de olhar cada vez mais quer para a Cresaçor, quer para as organizações do terceiro setor, sejam elas de economia social, sejam elas de economia solidária, como prestadores de serviços que desenvolvem um trabalho qualificado, de qualidade e que respondem a necessidades urgentes para as quais não há outras respostas. Não podemos olhar para nós como organizações subsidiodependentes. Qualquer empresa presta serviços e recebe por estes serviços. Isto tem sido, desde a primeira hora, um fator preponderante da Cresaçor e que é o desenvolver projetos não porque há financiamento para determinadas áreas mas porque há necessidades que precisam de resposta. Depois vamos ver qual o programa de apoio que pode pagar o desenvolvimento daquela resposta. Não desenvolvemos projetos só por desenvolver. Um bom diagnóstico é fundamental para o desenvolvimento de um projeto de qualidade que seja adequado às necessidades a que procuram responder. Um bom projeto é aquele que é feito em parceria com outros atores e agentes que estão na comunidade.

 
Que projetos futuros? A Cresaçor pode crescer mais na sua área de ação? 
A nossa ambição é assegurar estas onze áreas de trabalho. A nossa preocupação fundamental não é crescer ou diminuir, mas considerar se o nosso trabalho é necessário e se é de qualidade. Naturalmente, vamos sempre tentando – no âmbito do trabalho e dos diagnósticos que fazemos quer pelas equipas que estão no terreno e nas parcerias com outras entidades – desenvolver projetos que deem respostas às necessidades que vão surgindo. As problemáticas sociais são dinâmicas. Temos que estar atentos aquilo que realmente é necessário responder e não estar preso ao que já fazemos. 
Relativamente aos projetos para o futuro, é o continuar a trabalhar para a formação, capacitação e autonomização das pessoas, principalmente as que estão numa situação de grave carência socioeconómica. Neste âmbito, a aposta em ações de formação, sensibilização, e capacitação no âmbito do empreendedorismo é fundamental. Gostaríamos de a curto prazo desenvolver uma incubadora de empreendedorismo e empreendedorismo social na Cresaçor. Tendo em conta todo o ciclo que desenvolvemos no âmbito de empreendedorismo falta um espaço para o apoio à incubação de pequenos negócios.


Se fosse para eleger o projeto mais bem sucedido ao longo destes quinze anos, qual seria? 
São quinze anos que representaram muito trabalho, muitas dificuldades e de muitos projetos, mais ou menos, bem sucedidos. As 11 áreas representam aqueles projetos chave que foram desenvolvidos e que pela sua importância mereceram ter continuidade afirmando-se como áreas de intervenção e que depois deram origem a outros pequenos e grandes projetos. 
Dispomos de equipas multidisciplinares e descentralizadas que, de acordo com a sua missão e objeto social, colaboram in loco com os cooperantes e públicos em risco ao nível da consultoria e assessoria técnica em diversas áreas. É o caso da Agência Cores, vocacionada ao apoio aos cooperantes nas suas várias iniciativas de economia solidária e desenvolvimento local e dar resposta técnica à necessidades dos nosso cooperantes; desenvolver projetos de interesse para os associados, sendo o mais recente os Açores+,que já foi premiado, e no âmbito do qual relançamos o selo garantia Cores; formar os técnicos e colaboradores; dar visibilidade e notoriedade aos serviços de economia solidária e onde criamos o roteiro Cores, constituído pelas lojas de economia solidária presentes na ilha de São Miguel e que numa segunda fase será alargado a outras ilhas. Estamos presentes em termos associativos e cooperativos em São Miguel, Santa Maria, São Jorge, Terceira, e Flores. Trabalhamos em outras áreas como acompanhamento e apoio a imigrantes em situação de grave carência económica e social. Dentro desta área, o Centro de Apoio ao Imigrante operacionaliza o projeto Sertã Solidária, que em parceria com mais de duas dezenas de unidades de restauração e hotelaria recolhe os excedentes alimentares que são distribuídos por famílias com grave carência alimentar. Desde 2012 já foram distribuídas mais de 20 mil refeições, sendo diariamente cedidas 30 refeições. Temos ainda o apoio ao empreendedorismo social e microcrédito; a conceção de estudos de mercado, de estudos de viabilidade económica e de candidaturas a projetos e sistemas de incentivos regionais, nacionais e comunitário. No âmbito da medida microcrédito já apoiamos mais de 60 empresas de micro negócios e criação de mais de uma centena de postos de trabalho. Se somarmos todas as pessoas que apoiamos em termos de apoio ao desenvolvimento de plano de negócio, ideia de negócio, estudo de viabilidade económica e elaboração de candidaturas a outros sistemas de incentivo, os números sobem exponencialmente. Apoiamos mais de uma centena de pequenos negócios e criação de duas centenas de postos de trabalho. 
A Cresaçor tem ainda como áreas de trabalho o acompanhamento territorializado dos agregados familiares com necessidades habitacionais; o aconselhamento a cidadãos e cidadãs em situação de endividamento e/ou sobre endividamento; criação de imagem; organização de eventos como a realização de feiras, colóquios e seminários; realização de ações deformação; qualidade, higiene e segurança no trabalho; e no desenvolvimento de iniciativas de turismo inclusivo e de turismo social e solidário. Nesta área contamos com o Posto Técnico de Turismo Eco Atlântida, nas Sete Cidades e em Ponta Delgada, um site Azores Farol. Fazemos um trabalho a favor da democratização do turismo, trabalhando na promoção de atividades para pessoas com necessidades especiais. Já abrangemos cerca de 22 mil turistas, sejam em atividades ou atendimentos.


Em termos estatísticos quantas pessoas foram apoiadas pela Cresaçor ao longo deste quinze anos? 
É difícil contabilizar. O âmbito de ação de cada uma das áreas é muito diferenciado. Cada uma das áreas de trabalho apoia diretamente e indiretamente largas dezenas de pessoas.

Ana Paula Fonseca, Açoreano Oriental, 14/6/2015

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