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As organizações de emancipação social só podem ser feministas (Negócios, 11/10/2018)

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A crença no desenvolvimento e no progresso contínuo põe hoje em causa a viabilidade do planeta nos planos ecológico e de justiça social. A desigualdade mais transversal de todas, que perpassa classe social, etnia, idade, entre muitos fatores de discriminação, é a desigualdade estrutural de poder entre homens e mulheres.

Falar de feminismo é abordar os direitos humanos das mulheres, de todas elas, sem fazer tábua rasa da pluralidade de questões que enfrentam (brancas ou negras, ricas ou pobres, jovens ou idosas, lésbicas ou hétero, do Sul ou do Norte...). Não é tema fácil, pois muitas vezes basta nomear o feminismo para que se soltem reações que podem ir do simples incómodo à ira, dificultando a desmontagem dos muitos equívocos. Entendemos o feminismo como movimento social e político amplo, que procura a tomada de consciência, por parte das mulheres e dos homens, das condições de dominação e de desigualdade. Este processo depende da descolonização do nosso imaginário, do que aprendemos desde a infância sobre o que é ser homem e ser mulher.

O patriarcado atribuiu ao homem o papel de ganha-pão e associou uma valorização social acrescida ao trabalho remunerado. É frequente ouvirmos classificar mulheres que não têm um trabalho remunerado como dependentes ou até como inativas. Coloca-se assim fora da economia aquilo que são tarefas essenciais à sustentabilidade da vida e invisibilizam-se processos fundamentais para a reprodução dos seres humanos, que aliás sustentam também o próprio capitalismo.

Estão estatisticamente bem documentadas as desigualdades no trabalho e no emprego, nos usos do tempo, no acesso ao poder, na violência doméstica e de género. Os números são inequívocos.
As organizações da economia social e solidária, ainda que constituam um conjunto heterogéneo e com princípios diversos, partilham de uma outra racionalidade económica e geralmente conferem centralidade ao cuidado e à emancipação social. Importa aprofundarem a incorporação da igualdade de género nas suas diversas agendas, através de mudanças que superem o nível meramente discursivo ou cosmético e que visem uma transformação mais profunda.

Algumas perguntas podem ser feitas para ajudara desvendara desigualdade: quem faz o quê nas organizações? Que tarefas são definidas a priori para serem desempenhadas pelas mulheres e que tarefas parece mais "natural" atribuir a homens? Como são distribuídas as responsabilidades, nomeadamente na hierarquia? Quem integra a direção de topo? Que remunerações e prémios são atribuídos a homens e mulheres? Existem mecanismos de conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar? Respeita-se o direito à vida além da organização ou espera-se disponibilidade integral? As formas de participação dentro da organização são hostis ou amigáveis? Além destas questões, as organizações podem assumir a igualdade entre homens e mulheres como matéria central e podem integrar nas suas prioridades a defesa de uma economia assente no cuidado, isto é, na sustentabilidade da vida, pois dela depende também a sobrevivência humana na Terra.

Estas questões não dizem respeito apenas às mulheres, mas a toda a sociedade. A economia social e solidária, enquanto projeto de emancipação, só poderá assentar numa visão feminista, que coloque no seu centro a cultura do cuidado consigo, com as outras pessoas e com a sustentabilidade do planeta.

Graça Rojão

 

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