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"Um terço da produção alimentar vai para o lixo"- Entrevista a Hilal Elver (Diário de Notícias, 27/7/2015)

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A política agrícola está errada: produzimos demais e depois desperdiçamos, apesar da fome em muitas áreas do mundo. Filial Elver está em Lisboa para participar, hoje, na conferência “Direito humano a uma alimentação adequada’, promovida no ISEG pela Fundação Fé e Cooperação

É desde 2014 relatora da ONU para o Direito à Alimentação. O que é que fez neste primeiro ano? 
Não estava familiarizada com os pormenores e há que definir prioridades. A minha prioridade, o que penso que é mais importante, é o empoderamento das mulheres, a relação entre o direito à alimentação e o papel das mulheres na agricultura. É uma das formas de eliminar a fome e de fazer que as crianças sejam mais saudáveis. 

As mulheres podem fazer diferente? 
Têm um papel fundamental, especialmente as mulheres rurais em África e no Sul Asiático. Os homens vão para as cidades trabalhar ou são  refugiados. As mulheres ficam em casa, com as terras e as crianças. Mais de 60% dos agricultores são mulheres e só têm 2% do direito da propriedade, esse pertence ao pai, ao marido ou aos irmãos. Elas tratam da terra e dos filhos e não têm dinheiro nem apoios. Isso tem de mudar. Há projetos dedicados às mulheres, nomeadamente na ONU, mas é minha intenção incrementá-los para que o seu papel se tome mais visível. 

Falou em crianças saudáveis, mas vivemos num mundo de contrastes. Se, por um lado, se morre de fome, por outro morre-se por comer em excesso e mal. 
Esse é um problema grave, em especial a obesidade e as doenças do foro alimentar nos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, como a Índia, a China, o Brasil. Tomou-se uma epidemia e as multinacionais da indústria alimentar contribuem para isso. Mil milhões de pessoas têm fome, mais de 600 milhões são obesas e dois mil milhões estão subnutridas. Falamos de mais de três mil milhões que estão mal alimentadas. A nutrição e as crianças são outras das minhas prioridades. 

O tema das alterações climáticas é outra bandeira. O que deve ser feito? 
É a minha terceira prioridade devido às implicações na agricultura, na produção e no sistema alimentar. São muito nocivas para o meio ambiente, destroem a terra e a água, produzem óxido de carbono... As alterações climáticas têm de ser discutidas ao mesmo nível que a alimentação e a fome. Não se podem separar as políticas relativas às mudanças climáticas, das políticas para a agricultura e para a alimentação. Os desperdícios alimentares são outras das minhas prioridades – um terço da produção alimentar é desperdiçado. Produz-se comida e 30% vai para o lixo. 

Como é que se pode alterar? 
É preciso desenvolver a agroecologia, que é a forma de alterar o sistema agrícola, que está totalmente errado. Temos políticas agrícolas erradas, produzimos demais, desperdiçamos demais, e continua a haver pessoas com fome e subnutridas. Porque é que Isso acontece? Porque depois da Segunda Guerra Mundial a agricultura desenvolveu-se muito em tomo da produção intensiva, sem pensar nas consequências disso e sem haver equilíbrio entre a procura e a oferta. 

Não houve uma estratégia... 
Não, ou melhor, o que houve foi mais a estratégia de ganhar o máximo de dinheiro. Desenvolvemos a agricultura industrial, que tem ganho muito dinheiro, perdemos os pequenos agricultores. Na Europa, 45% a 50% das pessoas eram agricultores nos anos 1950, agora é de 2%, foi uma grande perda, e não apenas na Europa. Porque é mais barato comprar produzido e não houve um controlo dos preços. A alimentação tomou-se demasiado cara para países não desenvolvidos. 

Existem ONG a apoiar no terreno, há donativos. O que é que acontece para que esse trabalho não tenha resultados mais visíveis? 
Porque é um sistema muito disfuncional. Se se quer realmente ajudar essas pessoas, deixem de lhes dar comida. Muitas vezes, dão-lhes junkfood, destroem os mercados domésticos. Têm de incentivar as populações para que voltem a produzir a sua comida. 

Como se consegue essa mudança? 
Os governos têm de mudar as políticas. Têm de introduzir importantes políticas para a agricultura, a nível nacional e internacional. Têm de perceberem que país estão, do que é que as pessoas precisam, quais são os recursos, que solos têm e se os querem usar para a indústria ou para a agricultura. 

Voltar à agricultura tradicional?
Sim. Por isso falo em agroecologia, que não faz o uso intensivo dos solos e tem menos consequências negativas para o planeta. E preciso dar apoio aos pequenos agricultores. Só assim poderemos sair desta miséria.

Céu Neves

PERFIL 
Nasceu em Istambul, Turquia, há 61 anos. Doutorou-se em Direito na Universidade de Ankara. 
É investigadora, docente da Universidade da Califórnia, sendo codiretora do projeto sobre Alterações Climáticas. Segurança Humana e Democracia.

Interessou-se inicialmente pelos direitos ambientais. “Cheguei à conclusão de que não se podia falar em direito ambiental sem haver políticas para os direitos das mulheres. Comecei a estudar a água e os recursos, o que me levou ao direito à alimentação”, conta.

 

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