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Socialmente competitivo (Jornal i, 10/2/2015)

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Nesta semana, em conversa com um sócio de um dos principais escritórios de advogados de Lisboa, veio à discussão a ideia de responsabilidade social e como qualquer entidade hoje tem deter uma política e acções muito visíveis que possam ser apelidadas enquanto tal. No caso, como qualquer universidade que se preze, eu estava a pedir-lhes que entrassem, como parceiro privado, num programa que envolve disponibilizarem as suas pessoas sem receberem dinheiro em troca, algo exótico à primeira vista portanto, e que era mais bem aceite a coberto da tal responsabilidade. 
Confesso, como já fiz aqui antes, a minha irritação pessoal com as estratégias de responsabilidade social da maioria das empresas. Não me parecem mais do que fórmulas de branqueamento moral, casuísticas e oportunistas, como todos os branqueamentos intencionais. Recordo-me aliás do último banco a rebentar entre nós, que sabemos hoje que destruía alegremente milhões dos seus investidores e credores ao mesmo tempo que anunciava reconstruir a aldeia da Esperança, algures pelo Alentejo... 
Será que accionistas e gestores são livres de gastar o seu dinheiro como quiserem? O primeiro dever de responsabilidade social a sério em qualquer organização é para com aqueles que a fazem e nela trabalham. 
Depois é para com os seus clientes e para com a comunidade. Fazer produtos bons ao menor preço possível, pagar impostos, investir de forma saudável e sustentável. 
Quando os marketeers descobriram que a responsabilidade social podia vender, mas vendia mais se metesse pobrezinhos e má consciência, abriram a caixa de Pandora das campanhas caritativas às quais é difícil apontar defeito. O consumidor aceita a chantagem da empresa a troco do alívio moral que supostamente advém da sua participação. Ainda estou para descobrir a primeira empresa que assuma que a sua política de responsabilidade social é pagar justamente aos trabalhadores, pagar impostos e colocar produtos ou serviços no mercado a um preço socialmente competitivo. E sem festa nem folclore à volta disso. 

MIGUEL ROMÃO 
Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

 

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