Cidadania: como a aprender sem a viver?

07/07/2021 |
Cidadania: como a aprender sem a viver?

Este foi o mote e a interpelação do webinário ligado à educação para a cidadania promovido pela Animar no dia 3 de julho, que reuniu mais de uma centena de pessoas.

O encontro foi de uma grande riqueza de perspetivas já que contou com uma variedade de intervenções: do testemunho de crianças e jovens a representantes de instituições oficiais e de diversas associações ligadas à educação..

No universo da Educação, assumem-se como determinantes os Projetos Educativos, mais do que os Projetos Pedagógicos, e os Regulamentos Internos. Mas será que estes documentos são realmente DETERMINANTES? Será que, no momento próprio, as famílias se preocupam em estudar bem aqueles documentos orientadores? E, por outro lado, sentir-se-á a comunidade educativa representada neles?

Sabemos que poucos são os que realmente se preocupam em conhecer aqueles textos, avaliando e fazendo escolhas assentes nas perceções que constroem sobre a instituição que procuram para os/as seus/suas educandos/as.

Tendo como propósito o aprofundamento da discussão em torno dos desfasamentos que se verificam entre os horizontes vertidos nos documentos oficiais, como o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória, os referenciais de educação para a cidadania e as práticas efetivas, a abordagem às divergências /convergências que existem entre a efetiva construção da democracia e o atual funcionamento do sistema educativo, e a organização disciplinar e excessivo foco na avaliação sumativa, as desigualdades sociais que reproduz e as possibilidades de mudança na interação com outros agentes do sistema social: famílias, associações de desenvolvimento local, entidades governamentais, etc, este encontro permitiu conhecer algumas experiências e testemunhos que denotam a importância do envolvimento de alunos/as e encarregados/as de educação, assim como a importância do desenvolvimento de projetos de intervenção comunitária (Parceria de Intervenção Comunitária Açores, e a equipa e Prós da Educação, ComParte).

Aprofundando o conhecimento sobre vários Projetos Educativos, de várias escolas, raramente conseguimos reconhecer neles a integração da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Assumem-se, na sua generalidade, como programas de desenvolvimento inovadores, mas perseguindo sempre uma educação global, determinando procedimentos e atuações futuras. São mesmo idílicas e tantas vezes utópicas ambições, que ficam mesmo bem quando registadas sob a capa de documento orientador da Escola.

Ao longo do dia foram ainda identificados alguns fatores bloqueadores implementação do projeto educativo, entre os quais se destaca: a rotatividade de professores entre escolas de um agrupamento, não permite sentido de pertença; a burocracia tira tempo e espaço para promover ações de cidadania para alunos/as e professores/as; o fraco envolvimento dos docentes, discentes e pessoal não docentes na implementação dos projetos; o elevado número de alunos/as por turma; o desinteresse de jovens pela área associativa; sendo na maioria das vezes um documento construído por um grupo restrito uma vez que é obrigatório. A este nível, destaca-se ainda a valorização excessiva do cumprimento do currículo e da avaliação formal, assim como a insatisfação geral da comunidade educativa face às políticas educativas.

Por outro lado, foram também identificados alguns fatores facilitadores para a implementação dos projetos educativos, nomeadamente: a existência de lideranças fortes com capacidade de envolver e motivar o corpo docente para um projeto escolar mais dinâmico; a constituição de equipas educativas ficadas na implementação dos projetos educativos, pois a cidadania deverá ser tratada como uma disciplina em vez de ser transversal a todas as disciplinas. Face à necessidade de criar contextos e espaços colaborativos para a resolução de problemas que vão surgindo no contexto educativo, o projeto educativo poderia ser mais do que um documento, promovendo o papel dos encarregados de educação e tornando os pais mais intervenientes na ação do plano de atividades. Dentro das soluções debatidas, foi ainda referida a importância da criação de guiões de procedimentos e de aplicação prática para facilitar a integração de novos/as professores/as e de focar a importância de desenvolvimento dos alunos/as.

Algumas questões abordadas e outras que continuam a fazer sentido retomar:

Como encaramos a escola? Importante o pluralismo de perspetivas

Será a escola um sistema fechado ao resto mundo que a rodeia?

O que significa sucesso? Pode medir-se? Como construir uma educação de qualidade se nos focarmos sobretudo em critérios de avaliação quantitativa?

Como fazer da escola um espaço de educação para a cidadania se (a partir de uma certa etapa) o seu foco parece afunilar-se em finalidades exteriores: em particular a entrada para a universidade?

Como promover uma efetiva igualdade de oportunidades e maior equidade no sistema educativo?

Qual o espaço da sociedade civil: das associações de desenvolvimento e em particular da Rede Animar na construção de uma educação mais inclusiva e democrática?