Pessoas Sem-Abrigo no Feminino: olhares e reflexões entre a investigação e a prática

02/11/2021 |
Pessoas Sem-Abrigo no Feminino: olhares e reflexões entre a investigação e a prática

Realizou-se no dia 22 de outubro uma reflexão sobre Pessoas Sem-Abrigo no Feminino, que teve como ponto de partida a apresentação da Tese de Doutoramento “Women’s Homelessness and Housing Exclusion in Northern Lisbon Metropolitan Area: An In-depth exploratory study”- Mulheres em Situação de Sem-Abrigo e Exclusão Habitacional na Área Metropolitana de Lisboa Norte.

Esta iniciativa foi promovida pela Animar, EAPN Portugal e Médicos do Mundo, no âmbito da Semana Pelo combate à Pobreza e Exclusão Social (11 a 24 de outubro) e do Dia Municipal para a Igualdade (17 a 27 de outubro).

Da autoria da médica Sónia Nobre, esta foi a primeira tese de doutoramento feita em Portugal sobre mulheres em situação de sem-abrigo e exclusão habitacional, que resultou de uma investigação exploratória, que incluiu 34 mulheres em situação de sem abrigo ou exclusão habitacional na Área Metropolitana de Lisboa. O estudo, de natureza qualitativa, permitiu caracterizar este grupo de mulheres em situação de sem-abrigo ou exclusão habitacional e analisar os seus percursos de vida rumo a uma situação de sem-abrigo. As suas representações sobre a situação de sem-abrigo, as barreiras com que se deparam na procura por um lugar para viver e suas perceções sobre o futuro. Os percursos rumo à situação de sem abrigo, são o culminar de acontecimentos ao longo do tempo (trabalho precário, desemprego, violência doméstica) que remontam quase sempre à infância.

A apresentação do estudo trouxe para debate questões muito sensíveis que se prendem com vulnerabilidade, invisibilidade destas mulheres ao nível dos serviços públicos, muitas vezes das famílias que desconhecem a situação de sem abrigo; violência doméstica, desigualdade, desespero que se materializa na separação dos filhos e na perda das suas vidas. A sub-representação deste grupo em situação de sem abrigo deve-se, em parte, a dificuldades em chegar a essas mulheres, que vivem em situações escondidas, recorrendo a estratégias de invisibilidade em lugares escondidos do olhar público, (patamar de prédio, salas de espera de hospital, aeroporto, carro ou carrinhas), ocultando a sua condição de sem abrigo. Para além da situação de sem abrigo, acumulam muitos papéis com reconhecimento social (mãe, cuidadora, profissional) e experiências ao longo da vida, defendem valores e princípios morais - “não roubar”, manter aparência limpa e cuidada – e possuem forças (otimismo, determinação, fé) e competências de relações interpessoais.

Esperança, persistência, coragem e determinação, dignidade e autorrespeito são características que definem estas Mulheres em Situação de Sem-Abrigo e Exclusão Habitacional.

Decorrem desta reflexão conjunta baseada no estudo, alguns desafios e recomendações que é importante atender: alargar o olhar a outras áreas urbanas e rurais (sub-representação deste grupo que vive ocultando o seu desespero); abordagens sensíveis às questões de gênero, com foco na prevenção (informação sobre serviços, respostas, dirigida a subgrupos de mulheres) e medidas sistêmicas (combate à pobreza, desemprego, exclusão). Abordagem de intervenção integrada, individualizada, sensível ao trauma e soluções habitacionais; reorganização dos serviços e respostas a situações de grande vulnerabilidade; intervenções prolongadas no tempo.

27outubro 2021
Carolina Barrocas - Dinamizadora Regional | Alentejo-Algarve